terça-feira, 10 de junho de 2014

Uma carta de amor- frases- Nicholas Sparks

"Antes de termos nos encontrado, atravessava a vida sem sentido, sem razão. Sei que de alguma maneira, todos os passos que dei desde o momento em que comecei a andar eram passos dirigidos ao teu encontro. Estávamos destinados a nos encontrar. Mas agora, sozinho na minha casa, comecei a perceber que o destino pode magoar uma pessoa tanto quanto  pode abençoar, e dou por mim a perguntar-me porque razão - de todas as pessoas do mundo inteiro que alguma vez poderia ter amado - tinha de me apaixonar por alguém que foi levado para longe"

domingo, 8 de junho de 2014

Crescer é aprender a dizer adeus - Graça Taguti

Cai a folha, o fruto, o dente, a chuva. Surge o tesão, as espinhas, a menstruação, o verão. Crescem o peitinho, a ansiedade, os jeitinhos e as opiniões. Mudam as formas, o clima, o corpo, as estações.
Passam as horas, os dias, alegrias e expectativas. Passa o choro de ontem, a ilusão de anteontem, o amor que se mostrava eterno no ano passado. Passa a chuva e o calor. A compulsão de comer chocolate, assistir àquele filme, ir para a balada esta noite, ficar com o gatinho que parecia especial, também passa.
Passam certas necessidades a serem colocadas a limpo. As qualidades, os defeitos, as metas e planejamentos para o próximo ano, são passados para a agenda nova.
A adolescente, viçosa e manhosa, começa a passar hidratantes na pele iluminada e batom nos lábios. Aquelas ondas tão altas concordam em se aquietar um pouco para você passar com a sua prancha para além da rebentação.
Nasce a vontade de crescer, ter a chave de casa, viajar com os amigos, entrar para a faculdade.  Conseguir o diploma e já pensar no mestrado.
Urge ir à praia, comprar biquíni novo, experimentar o bronzeador cor de mate, tomar um chope geladíssimo na hora do almoço.
Urge também criar coragem e se declarar para o professor de anatomia.  Dizer poemas em voz alta para Manoel de Barros, abraçar em sonhos os caleidoscópios de Fernando Pessoa, as reflexões de Drummond, as delicadezas transparentes de Mário Quintana.
Notam-se os traços do líder, da mocinha politizada, da rebeldia inconteste, dos iconoclastas declarados.  Registram-se os movimentos do gesto solidário, as virtudes dos ideais multiplicados. Notam-se a intransigência e a ganância dos políticos, só menor que suas falácias, tramoias e ardis.
Anoitecem as verdes querências, as antigas indulgências, as compulsões pelos porres e as ressacas. As inconsequências, saudosas irresponsabilidades, a certeza de que o universo é infinito, porém menor que a estupidez humana.
Nasce mais adiante a vontade de casar, comprar apartamento, e se não der, alugar um, de preferência na zona sul da sua cidade. Ter um filho é um desejo que nasce invariavelmente.  Vem o primogênito, então, mais parecido com um lindo bebê de borracha, que todos anseiam apertar e mordiscar.
Nasce ainda a vontade de transar com a mulher do melhor amigo, porque é proibido proibir. De escrever às escuras uma biografia não autorizada da sua vizinha, que todas as noites troca de visitantes. Seu apartamento, o porteiro comenta à boca pequena, mais  se  assemelha a  porta de bar, ostentando diuturnamente um  entra-e-sai fervilhante.
Muda o gosto pela leitura, pela música, como é legal escutar música clássica, a moda comportada, que dá lugar à irreverência fashion. Muda o corte de cabelo, a cor das mechas, o tamanho dos seios, com alguns bem vindos mililitros de silicone. O jeito de andar, de seduzir, de beijar e se apaixonar.
Mudam as exigências, as compreensões dos defeitos alheios, a semântica dos conceitos de fracasso, autoestima e amizade. Muda-se o gesto contido e egoísta para a ação coletiva. As manifestações e passeatas nas ruas.
O modo mais enérgico de acordarmos o gigante sonolento, cujo leito tem as dimensões  do Brasil. Mudam o tom e o conteúdo das reivindicações ao governo que nunca-está-nem-aí-para o povo, as demandas,  agora mais claras e incontestáveis.
Sacodem-se os projetos ainda em gestação, as poeiras do passado, as relações desbotadas, os discursos maquínicos. As poeiras dos tapetes, as roupas nos varais, as belas ancas, que dançam soltas um forró delicioso e gingado com um,  dentre os inúmeros  e afoitos pretendentes.
Aprende-se a viver mais de mansinho, a morrer sem estardalhaço, a trocar a costumeira arrogância por duas doses de humildade. A trancar mentiras feias nas gavetas da consciência. Aprende-se a buscar rotinas mais éticas, um corpo mais harmonioso, relações mais mágicas e férteis, no amor e no trabalho.
Aprende-se a dançar um tango vertiginoso, embebido em estrógenos e testosteronas que circulam sem parar pelos salões da tentação.
Se aceita o envelhecer, a memória preguiçosa, a vitalidade que decai aos pouquinhos, a comida com menos sal, porque a pressão não pode subir tanto. Tolera-se refrear a gula, alternar sonhos iridescentes por outros mais pertinentes. As perdas que doem tanto, as criticas alheias, às vezes implacáveis. As injustiças tremendas que os correios do acaso remetem sem aceitar devoluções.
Tolera-se, com tristeza, é verdade, o amigo que desistiu de você, a falsidade dos outros, a esperteza de alguns que acabam sendo flagrados, felizmente, por sua intuição em estado de alerta.
Hospeda-se a doença, às vezes insuperável, o tumor a ser extirpado, a morosidade das horas, a sucessão de exames clínicos, a austeridade do silêncio, indispensável em certas etapas da existência.
Suportam-se despedidas, longas ou curtas, abandonos inexplicáveis, o crepúsculo da vontade, em seu estágio mais débil. O lamentável definhar de sorrisos e acolhidas familiares, histórias esgarçadas pelo medo, indiferença, inveja e desamor.
Compreende-se a beleza muda e estonteante de alvoradas. As promessas da natureza, ao oferecer, a quem sabe apreciá-la, seu o hipnótico balé de pássaros e borboletas de todas as cores. A liberdade no voo das águias, a elegância das garças e girafas, o faro de panteras à espreita de pobres alvos distraídos. A amizade buliçosa dos golfinhos, cuja euforia espalha-se no mar quente e escandalosamente azul.
Descobre-se, por fim, a sabedoria embutida no verbo crescer. Nos imprescindíveis desapegos diários. Nas despedidas de hábitos inúteis, situações e pessoas.
Porque afinal constata-se que crescer também é um pouquinho isso: ir dizendo adeus para as coisas.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Pra não pensar em você

                                                                                                           Angélica Cardoso



Tomei uma xícara de café. Digitei algumas mensagens, apaguei as mensagens. Li algumas páginas de um livro, tirei um cochilo, sonhei com você, acordei com raiva, eu não quero sonhar. Arrumei algumas gavetas, tirei roupas para doar, experimentei algumas, nada mal, tudo péssimo. Passei um pó na cara, talvez ainda falte um delineador; um batom. Lembrei do meu batom na sua camisa, tá, isso não importa mais.

Assisti um filme, mudei o canal, escrevi uma carta, olhei o celular. Quem sabe o e- mail? Um passeio de carro a 100 km por hora me faria melhor, a nossa música alta, tocando só pra mim, trazendo com ela os fragmentos de tudo que vivemos, para. Essa não é mais a minha vida.

Vou olhar mais uma vez o seu twitter, e reler aquelas entrelinhas que eu pude bem compreender, isso me alimenta. Quem sabe imaginar mais uma vez como seria aquela noite que eu tanto programei. Chega. Vou sair, tomar outro café, dessa vez acompanhada de um bom amigo, que me faça rir e me tire desse devaneios. Trabalhar também me afasta de você. Exceto pelas inúmeras vezes que digito seu nome no meio das minhas pesquisas.

Preciso mudar o disco, comprar roupas novas, mudar de estilo, trocar de carro, escrever mais um capítulo do meu livro ( também preciso mudar a história dele), fazer novos amigos, exaurir a áurea, ficar sem alma.
Preciso parar, chegou uma mensagem, pode ser você...

Saí de fininho - Uma crônica sobre o medo de ficar- Ricardo Coiro

Seu resto jogado no escuro. É isso que deixei após minha partida precoce e minha saída silenciosa. Fiz-lhe um bocado de cafuné, esperei você pegar no sono mais profundo e só fui embora quando seu sorriso leve finalmente chegou, dizendo que seu primeiro sonho havia começado.
Saí sem fazer alarde e, dessa vez, diferente de todas as outras, não bati o dedinho do pé na quina de sua cama e nem precisei apalpar suas paredes sempre tão magnéticas para meu nariz. Não precisei nem acender a luz do quarto, apenas tirei meu peito debaixo de sua cabeça e, no lugar dele, deixei meu travesseiro lotado do meu cheiro para que não notasse minha fuga.
Sem fazer qualquer barulho, ainda tive a audácia de abrir suas gavetas, armários e pastas do computador, pois queria apagar de vez todas as provas e rastros daquilo que havíamos vivido até ali. Joguei minha escova de dente pela janela e meu desodorante coloquei no bolso. Calcei o chinelo que morava ao lado do seu e na mochila, com dor no peito, coloquei os muitos livros que lhe emprestei e você nunca nem pensou em ler. Por fim, para tentar poupar-lhe de qualquer nó na garganta ou esbarrão imprevisível com a saudade, apaguei do seu computador as fotos sorridentes que havíamos tirado naquele Réveillon que passamos em Santiago e joguei na lixeira aquela playlist que ouvíamos em looping eterno enquanto varávamos a madrugada entre goles de qualquer coisa etílica e cigarros euforicamente acendidos um no outro, como se fôssemos imunes ao câncer e à falta de ar.
Desculpe-me por ter saído sem que pudesse notar, por ter me desfeito de nossas impressões digitais sem que você tivesse a chance de me contrariar e por não ter deixado nenhum mísero recado na sua geladeira explicando o motivo que me fez deixar nosso amor inteiro em pedaços.
Eu realmente precisava ir, e só saí antes da hora porque queria levar comigo somente as lembranças imaculadas do nosso auge e sabia que só assim conseguiria fazer com que nosso caso durasse para sempre. Eu saí de fininho naquela noite, pois não queria esperar mais e correr o risco de presenciar a natural decadência de nossa gana incontrolável. Eu saí antes que nossos beijos infinitos virassem apenas selinhos apressados, sem gosto, presença de língua ou demonstração de fome. Eu saí antes que faltasse conversa em nossos passeios de domingo e antes que o volume do som do carro não fosse mais diminuído para que pudéssemos ouvir o som de nossas vozes. Saí antes de virarmos rotina, silêncio irreversível, acomodação covarde e pena um do outro. Eu saí morrendo de vontade de continuar ali, com meu pé encostado no seu e meu braço dormente debaixo de seu pescoço, mas sabia que precisava ir enquanto ainda havia tempo para congelar aquele sonho, perfeito como só ele foi.
Esse texto faz parte do livro Confissões de um Cafamântico. 
Extraído do site Casal sem vergonha (http://www.casalsemvergonha.com.br)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A última chance...


Tão necessária, tão vital, que só quem sente que não teve esse direito é capaz de saber. Vida que segue, mesmo tropeçando em pedras, o caminho precisa continuar... Mais um dia, mais algumas horas, mais algumas lágrimas, mas vai passar...

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A um click tsc tsc tsc -

                                                                                                        Angélica Cardoso


Então, depois daquela noite eu decidi parar de escrever pra ele. Cansei, nenhum texto foi enviado e ele nunca teve a oportunidade de saber o que eu pensava. Mas isso também não importa, ele não se importa. Dos 2823 textos escritos ele não leu nenhum, e nem leria se eu tivesse dado a ele o meu bom e velho caderninho.
Mas eu leio, e releio e essa saga já dura alguns bons anos, sempre que preciso esquecer que o amo, eu leio o bendito; Com o passar do tempo os textos começaram a ser escritos numa tela mágica, em que basta 2 minutos de coragem desmedida para chegar ao destinatário. E não é que eu ainda escrevo pra ele? Me assusto com a possibilidade de no meio dessa loucura, confessar todos os meus desejos insanos e revelar aqueles textos que nem tenho mais coragem de ler. Dia desses eu me afoguei numa garrafa de Plavac Mali, e meu desobediente censo de ridículo falhou, lá estava indelével em sua caixa de entrada o meu humilde texto. Justamente aquele que eu jurei que nunca mandaria, ele revelava bem mais do que eu mesma sabia; " Eu não teria coragem de te contar, nem mesmo depois de todas as doses possíveis de um destilado, que hoje fazem 15 anos, 7 meses e 29 dias desde a primeira vez em que nos beijamos, também não diria que ainda lembro cada movimento do seu corpo, ou a roupa que você que estava usando, seu cheiro, bem o cheiro não conta, ele está em mim até hoje. Não poderia nunca te revelar o como me sinto, quando encosto na parede da sala, naquele mesmo lugar aonde  me encostou e, pra falar a verdade acho que estou lá até hoje, fiquei emoldurada naquele meio metro quadrado onde meu corpo deixou de ser meu e passou a te pertencer". E lá estava, dentro da sua caixa o meu maior erro. Volta, volta, não dá mais, já cliquei pra enviar...

... você está digitando: " :) <3 "

E não cabendo mais na vergonha que me assolava eu digito:

...é só um texto bobo e sem fundamento

... você saiu da conversa

E então, volto ao meio da sala e me sento em frente a nossa parede, pra assistir mais um capítulo da nossa história. Estamos eu, a taça de plavac e o humilhante caderninho. É quando começa a seção,  ele me abraça como se não existisse mais o mundo lá fora, com fome, com sede, com olhar de menino e paixão de gente grande, e eu o faço meu personagem favorito, te devolvo em calor e transformo em beijos a noite mais especial da minha vida. 
A bateria vai acabar, e nem mais um click, vou ter a oportunidade de pensar antes enviar, e ele não vai saber até que eu tome o próximo porre.

...estou digitando, preciso andar logo, aproveitar a coragem absurda que álcool me deu
... eu te amo, nem mais um click (a bateria acabou).



Amor bipolar - Nem é amor, vai! -

                                                                                                         Angélica Cardoso


Todas as vezes em que precisei usar um porquê, ele foi minunciosamente estudado, para não fragmentar um sonho. Agora peraí, vamos lá você desistiu? Sim você desistiu, não aguentou a dificuldade de lutar, de olhar nos olhos, de me ver te encarando a cada palavrão que você dizia, não suportou o fato de abrir a porta eu estar deitada na sua cama, te esperando pra fazer sei lá oquê. Você desistiu quando viu que eu queria paixão de 4 dias e amor pra vida inteira, você desistiu quando se irritou e bateu a porta, só porque não conseguiu me esquecer. Tá bom confessa vai, eu não fui seu passatempo, não deu pra fazer como fazia com as outras, dessa vez você se apegou. Só pra saber, não adianta fugir e nem adianta fingir, seus olhos te traíram todas as vezes em que me negou amor. Embora conteste o meu amor, e acredite que eu só ame um personagem, eu te digo: é verdade, é daí? Não te dou mais explicações, eu nem tenho explicação; eu amo desesperadamente um louco bipolar que não existe... 
Apesar de ter achado a resposta dos porquês, eu não achei nada. Eu ainda tô procurando, eu procuro todo dia, e cada dia a resposta é diferente; ela depende de seu humor. Só sei que na segunda, eu sou a maior idiota do mundo e na quinta a mulher mais desejada. Nesses dias eu preciso não pensar em você, preciso manter a linha dura que eu venho fazendo, mentira eu penso sim o dia todo, eu sou uma babaca. Você quer dormir lá em casa? Ou podemos continuar a conversa aqui no chat? Você disse que o desejo não morre, pode sobreviver  a distância, a saudade, a lacuna, e as vezes eu acabo concordando, mas hoje eu não quero concordar. Meu desejo é de você, e não estou disposta a esperar, quero agora com urgência. Essa foi a semente que você plantou, e agora quer matar de tanta água. Para, eu não vou crescer no grito, vou me afogar, vou me acabar, mesmo sabendo que eu não te quero mais. Você diz que ama, e eu não sei mais falar disso, mas eu vou reaprender; vou nada, eu não quero. Eu quero ESQUECER que você aquece os meus pés, que me provoca calores que se igualam a estar à 1000 metros do sol, que ninguém coloca os meus cabelos atrás da orelha como você, só com a pontinha do dedo, só quero esquecer aquela frase que você fala bem baixinho no meu ouvido e pronto, já estão completas as preliminares. Mas você desistiu, ou não resistiu... 
 Esse texto é sobre mim, apesar de repetir inúmeras vezes a palavra você..  Chega. Hoje o analista me disse que sou bipolar, que os meus porquês tem respostas variadas.  Não acreditei em uma palavra do que ele disse. Mas sabe, ele tem toda razão. 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Encerrar ciclos



Tão necessário e tão difícil... 
Principalmente quando não nos convencemos de que tais momentos já acabaram, continuo na busca por uma paz controversa, essa paz que eu não sei se quero, ( eu quero, mas tb quero a guerra que esse sentimento me provoca) a minha luta é diária, a travo todos os dias quando acordo e me rendo a noite quando vou deitar... As vezes tenho a ilusão que passou, mas não passa, no fundo eu sei que ele ainda está aqui. Talvez o caminho seja achar a cura ( só pode ser doença) e tenho a sensação que me livrar dele seria como tirar um órgão por opção; Como viver sem uma parte essencial??? O dilema continua....

sábado, 15 de março de 2014

A última carta que escrevi - Pedro Gabriel

Me senti tão co-autora desse texto, que precisei compartilhar aqui... Talvez, pq se trate do mesmo sentimento, ou por tb achar cafona um texto de amor de um adolescente (pra falar verdade quem ou o que não é cafona quando se trata de amor?) ou simplesmente pelo prazer de receber uma carta... e/ou tão somente pelo fato de tb passar vários anos, (e ultrapassar a adolescência) e ela nunca ter sido entregue... 

[A última carta que escrevi]
A última carta que escrevi foi em dois mil e sete; eu tinha vinte e três anos e ela dez páginas. Era uma carta de amor, pelo menos achei que fosse, em papel de linho branco, com gramatura 180. Optei por uma caligrafia mais simples para ter certeza que a destinatária entendesse todas as palavras escritas. Usei tinta nanquim de uma marca chinesa – dizem que são as melhores, e uma pena antiga, presente do meu pai. Para escrever cartas de amor, escolha sempre a melhor tinta, assim daqui a dez, vinte ou cem anos, você terá certeza de que as palavras estarão ali com a mesma força, ou fraqueza do dia que você lacrou selou a carta, lacrou o envelope e entregou com todo carinho para a moça dos correios. Cartas de amor, depois de um tempo, deixam de ser cartas de amor e passam a ser cartas de saudade para alguns ou cartas de remorso para outros.
Levei doze dias para terminá-la e até hoje não me lembro de ter posto um ponto final.
Se eu relesse essa carta, provavelmente acharia um pouco cafona: culpa da minha imaturidade adolescente. Mas tinha passagens bonitas, eu lembro. Não a decorei. Não sei dizer palavra por palavra o que estava escrito. Mas sei sentimento por sentimento o que por escrito foi dito. Hoje em dia os e-mails, as mensagens de chat, os comentários nas postagens, tomaram conta da troca de palavra. Se o nosso tempo fosse uma estação, seria o inverno. Estamos sós, conectados com tantas outras solidões. Somos frios, uma fina melancolia sempre parece nos forçar a rir (kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk). As risadas não são tão engraçadas. E isso me dá silêncios. Longos silêncios. Acho que descobri o motivo de eu demorar tanto para responder meus e-mails. Vivo no ritmo das cartas. Ah, preciso evoluir! Ah, preciso aceitar que acabou! Mas por que ninguém me mandou ao menos uma carta para avisar?
Sou do tempo do amor nos tempos do cólera. Sou do tempo em que a espera tempera a palavra, valoriza o conteúdo. Sou daquele tempo e ainda tenho vinte e nove anos. Você ainda lembra da carta que não escreveu por preguiça, por achar uma forma ultrapassada de se revelar ao mundo ou por simplesmente preferir o instantâneo e julgar mais conveniente dizer tudo que sente em poucas palavras? Ah, se você soubesse o quanto ela poderia mudar a vida de alguém. Não estou pedindo para que você seja Florentino Ariza e espere 51 anos, 9 meses e 4 dias por um grande amor que talvez nunca chegue. Eu também gosto da rapidez dos nossos tempos, mas, às vezes, o amor pede mais de 140 caracteres. Meu pai até hoje me manda os tais cartões postais. São breves palavras que encurtam a distância de 10.000km que nos separam, e abrem sorrisos capazes de criar uma ponte entre o Rio de Janeiro e a cidade de Chur, na Suíça.
Fernando Pessoa, na pele de Álvaro de Campos, diz que todas as cartas de amor são ridículas. Guimarães Rosa revela que a vida quer coragem da gente. E eu concordo, Álvaro. E eu te dou toda razão, Guimarães. Queria eu, naquele dia em que lacrei o envelope, ter sido mais ridículo e ter tido muito mais coragem. Isso evitaria o meu remorso ao confessar nesse momento que a última carta que escrevi foi em dois mil e sete; eu tinha vinte e três anos e ela nunca foi entregue.
Com carinho,
Pedro Gabriel
PS: (talvez um dia eu mande por whatsaap  )

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Saudades

Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Página solta - Antonio -

Sem exagero, não há nas bibliotecas deste mundo, não há nos pisos deste chão, não há na lucidez das minhas loucuras e muito menos na imensidão das suas ausências, nada nem ninguém capaz de entender o silêncio dos meus poemas com a mesma delicadeza dos seus olhos. Eles têm o privilégio de ler as entrelinhas de cada verso, e por ali ficar por horas e horas e dias e dias, até adormecerem num sonho confuso e denso – como são os sonhos dos que amam e não podem se entregar. E eles nunca se fecham porque precisam de vida para morrer, e também precisam se alimentar dessa poesia para continuar a brilhar e a sentir saudades e a mentir verdades. Por isso serão sempre densos, tensos e imensos.

Já meus poemas têm a necessidade de buscar nos seus traços o formato de cada letra e o compromisso de catar em suas mãos as palavras mais imperfeitas – aquelas que nunca foram versificadas – e ver se cada "eu te amo" gritado silenciosamente pelos seus lábios finos consegue me acolher sem dentes, sem me deixar sofrer e só me fazer enxergar o que há de mais belo no amor: aquilo que não se diz. Meus poemas também têm a obrigação de contar nos seus dedos todas as vezes que eu não pude ouvir o tom da sua voz tão deliciada dizer que sente a minha falta. E nesse timbre ficar e respirar por meses e meses e rimas e rimas, até adoecerem num sonho doce e triste – como são os sonhos dos que amam e não encontram ninguém para se entregar. E eles nunca se ausentam por muito tempo porque precisam das migalhas da sua presença, dos pedaços mastigados do seu coração e de alguns goles das suas lágrimas para não secarem, sozinhos, como os pontos finais dos breves romances sem final feliz. Por isso também serão sempre densos, tensos e imensos.

Saiba que também não sei muito bem o que pode sair da boca e dos poros e das mãos e dos olhos de um homem de carne e osso e sangue e sonhos que se permite acreditar na realidade de vez em quando. E mesmo que nada faça sentido. E mesmo que eu não consiga me expressar com as palavras certas. E mesmo que você não interprete da maneira mais simples meus sentimentos mais complicados, meus desejos mais confusos e minhas mais sinceras verdades sobre você, sobre mim, sobre nós; saiba que aqui, em cada página, em cada erro ou palavra, em cada espaço ou entrelinha, em cada ponto e vírgula, estão os meus mais vivos pensamentos, aqueles que pulsam e vibram cada vez que pensam no que não fomos... Não sei como nem quando surgiu a ideia de começar a te escrever.

[página solta de uma carta despedaçada; antônio]